Corresponsalías: Brasil
06/09/2009
Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
Brasil-"Você vai abrir universidade para quê e onde?"
 
 
Logo após a divulgação do resultado do ENADE pelo MEC, o blog entra no debate oportunamente publicando outro trecho da 1a parte da entrevista concedida pelo ex-Chefe da Casa Civil, José Dirceu, chamada As Novas Bandeiras.

Trata-se das perguntas da então presidente da UNE, Lúcia Stumpf. Na pauta, educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento.

*"Não podemos pensar que a universidade irá se desenvolver à parte das empresas".

*"Na verdade, a escola privada não é um mal, desde que esteja dentro de um sistema nacional de educação e que cumpra determinados padrões de educação".

*"é preciso resolver essa questão da relação entre a universidade e o desenvolvimento econômico".

*"A universidade precisa voltar a pensar o país".

Leia a entrevista:

[ Lúcia Stumpf ] A UNE fala sobre o debate da reforma universitária há muito tempo. O movimento estudantil aprovou ano passado um projeto que apresentamos e queremos dialogar com o governo, porque o que temos hoje é insuficiente frente à demanda de inclusão que temos nas universidades. Apenas 12% dos jovens entre 18 a 24 anos estão no ensino superior e mesmo assim, após o PROUNI e a abertura de mais vagas noturnas.

[ José Dirceu ] E as escolas superiores privadas?

[ Lúcia Stumpf ] Nas privadas, mudou o perfil. O trabalhador entrou e democratizou o acesso, mas só 12% dos jovens estão na universidade e ela ainda é muito desconectada do sistema educacional. Uma universidade que ainda perpetua a exclusão. O que você pensa sobre a reforma universitária? Como inverter essa lógica e tornar a universidade brasileira um fator de inclusão da juventude e não de exclusão como é hoje?

[ José Dirceu ] A universidade precisa voltar a pensar o país. É evidente que ela pensa o país, mas não existe um movimento de peso nesse sentido e a partir da universidade. Lógico que existem centros que debatem o Brasil, mas isso não acontece com a universidade como um todo. Além disso, trata-se de uma corporação fechada, com privilégios e interesses como todas as corporações. É preciso repensar a organização da universidade, sua estrutura, inclusive, como distribuir poder. Depois, precisamos dar o salto do desenvolvimento tecnológico que vem acontecendo. O governo vem liberando recursos para os centros de tecnologia, mas temos que fazer muito ainda.

Um ponto importante a resolver é a questão da Lei de Inovação, ou seja, a relação entre universidade e empresa, financiamento da pesquisa e pesquisadores. Como você traz fundos públicos e privados para este financiamento? Vejo muita reação contra, mas francamente... A China e a Coréia se desenvolveram a partir disso. Lá existe universidade com recursos para a pesquisa, e também uma parceria e relação com as empresas – o desenvolvimento tecnológico empresarial – que favorece e muito. Eles criaram fundos na universidade. Como funciona? A universidade desenvolve uma tecnologia, vende, mas diz: quero 25% de participação na sua empresa e o dividendo vou colocar num fundo que fará investimentos de pesquisa.

Portanto, é preciso resolver essa questão da relação entre a universidade e o desenvolvimento econômico, pesquisa tecnológica para a produção e empresas privadas. Desde que isso tenha choque de interesses, nós temos que fazer a disputa política. Não podemos pensar que a universidade irá se desenvolver à parte das empresas. A economia brasileira é organizada em empresas, poucas públicas, poucas mistas e a maioria absoluta é privada. Mas também temos o SEBRAE com a pequena e média empresa, a agricultura familiar, os laboratórios nacionais que estão sendo esmagados, comprados, inviabilizados. A universidade tem que entrar nessa briga.

Também existe a questão da expansão da universidade, a proporção entre o público e o privado. Isso ocorre, menos no Nordeste onde as federais tem grande peso - e mais no Sul e no Sudeste do país. De qualquer maneira, as universidades particulares devem se adequar – com fins lucrativos ou não, como as filantrópicas – ao Plano Nacional de Educação, a uma qualidade nacional de educação e a um número de mestres, doutores e pesquisas. Tudo isso tem que crescer cada vez mais. Muitos argumentam que o problema é o crescimento do custo da universidade. Sim, é evidente, mas também cresce a renda do país. E pode aumentar a subvenção. Podemos equilibrar pelo menos 35% dos estudantes em escolas públicas e 65% em privadas. Na verdade, a escola privada não é um mal, desde que esteja dentro de um sistema nacional de educação e que cumpra determinados padrões de educação. Lógico que o ruim é você pagar duas vezes - o imposto e a educação - mas é um movimento a ser resolvido nos próximos dez anos. Primeiro há um desafio político em relação à universidade, o seu papel no país. Qual o papel da universidade na luta contra o analfabetismo? Qual o seu papel na formação pedagógica dos professores? Está engajada no movimento para elevar a qualidade de ensino no país como um todo? Para que serve a universidade? O mais importante de um país é elevar o nível cultural, o fator humano. Só assim se eleva a produtividade. E desconheço desenvolvimento e crescimento sem isso. O fator humano – conhecimento - é o principal elemento de desenvolvimento hoje. Não é mais a matéria prima, os bens de produção, o principal fator de produção hoje é o conhecimento.

Os Estados Unidos sairão dessa crise se forem capazes de desenvolver a energia limpa. Na realidade, quem conseguir vai para a vanguarda do desenvolvimento da humanidade, como aconteceu quando eles fizeram a revolução tecnológica que tanto serviu para a hegemonia do capital financeiro e bancário. Nada serviu tanto à globalização financeira do mundo quanto a internet. Ela foi fundamental. Por isso, nós temos que fazer um debate político sobre o papel da universidade no país.

Vemos as universidades, os conselhos, muitos em debate com o governo na formação dessa política que hoje vigora. Mudou e melhorou. Mas qual a participação dos professores no debate do país? Um ou outro é que se destaca e faz parte da vida nacional, entra realmente no debate político. E digo tanto os conservadores quanto os mais progressistas. E mesmo publicações nas universidades. É claro que isso não diminui o papel das universidades brasileiras, nem dos seus centros de excelência. Temos a USP, a UNICAMP, as federais por esse país. Pelo contrário, o Brasil precisa discutir - como está fazendo com os CEFETs - quais as prioridades da educação do país. Você vai abrir universidade para quê e onde? Devemos abrir universidade e fazer cursos antes impensáveis, ligados ao desenvolvimento local e à cultura regional. Eu daria essas diretrizes para um debate da universidade. Há problemas salariais, de equipamento, sobrevivência dos estudantes. Mas a pauta de reivindicação também precisa ser encarada. Os estudantes tem que ter transporte, comprar material escolar e trabalhar. O ideal é que todos pudessem trabalhar após os 16, 18 anos no país.

[ Lúcia Stumpf ] O Márcio Pochmann fala a partir dos 25.

[ José Dirceu ] No futuro sim. Já existe esse problema na Europa. Mas eu afirmo que pelo menos 16 a 18 anos. Tenho um pouco de preconceito quanto a isso porque toda a minha geração começou a trabalhar aos 13, 14 anos e não fez mal algum. Mas estamos em outra época. O desejável é que seja depois dos 18.
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